Trombo apical no ventrículo esquerdo: qual anticoagulante usar?

 (Mardson Medeiros)





Posicionamento do ACC Scientific Statement 2026 e evidência randomizada sobre anticoagulantes orais diretos


1. O que diz o Posicionamento do ACC de 2026

O documento contém uma subseção específica intitulada "Left ventricular thrombus" (dentro de Special Considerations, p. 16). Seu conteúdo, em essência: pacientes com fração de ejeção reduzida e/ou infarto de parede anterior apresentam maior risco de trombo no VE; a anticoagulação é habitualmente mantida por pelo menos 3 meses quando o trombo está estabelecido, podendo ser mais prolongada em alguns pacientes; e os dados randomizados são limitados — o texto cita o estudo No-LVT (ref. 189) e o ensaio piloto de Jenab com metanálise pré-especificada (ref. 190) —, mas, somados a múltiplos estudos observacionais, sugerem que os DOACs, particularmente a rivaroxabana e a apixabana, são comparáveis aos antagonistas da vitamina K quanto à resolução do trombo e aos desfechos tromboembólicos, com risco de sangramento semelhante ou potencialmente menor. A seção encerra reconhecendo que faltam ensaios randomizados de grande porte e definitivos.

Três observações merecem destaque em uma leitura crítica:

•    O documento nunca emprega a palavra "apical" — o trombo do VE é tratado como entidade única. Como os trombos pós-infarto são quase invariavelmente apicais, a seção aplica-se de fato ao cenário em questão.

•    O trombo do VE não recebe recomendação de consenso destacada: está ausente da Tabela 1 e da Ilustração Central, aparecendo apenas em texto narrativo.

•    Não são especificados doses dos agentes, esquema de reavaliação por imagem, nem critérios para prolongar o tratamento além dos 3 meses.


2. Evidência randomizada dos DOACs no trombo apical do VE

Com base em artigos recuperados do PubMed, o cenário de ensaios clínicos randomizados (ECR) reúne hoje cinco estudos abertos, todos com a resolução do trombo como desfecho primário:

Estudo

n

Comparação

Resultado principal

No-LVT (JACC 2021)

79

Rivaroxabana 20 mg vs varfarina

Resolução semelhante em 6 meses; menos sangramento com a rivaroxabana

Alcalai (EHJ-CVP 2022)

35

Apixabana 5 mg 2×/dia vs varfarina

Resolução em 16/17 vs 14/15 aos 3 meses; não inferioridade (p = 0,026); os dois sangramentos maiores ocorreram no braço da varfarina

Mansouri (Thromb J 2024) — exclusivamente trombo apical

52

Rivaroxabana vs varfarina, pós-SCA

Resolução de 76,9% vs 69,2% (sem significância); todos os trombos móveis tornaram-se imóveis nos dois braços

Jenab (piloto) (EuroIntervention 2025)

50

Rivaroxabana 15 mg vs varfarina (RNI 2,0–2,5), pós-IAMCSST

Resolução de 76,0% vs 54,2% (p = 0,12); análise agrupada: 80,8% vs 70,5% (p = 0,08) e sangramento maior de 1,7% vs 8,0% (p = 0,05)

RIVAWAR (JACC Adv 2025) — maior ECR até hoje

261

Rivaroxabana 20 mg vs varfarina (2:1), trombo agudo pós-IAM

Resolução mais rápida em 4 semanas (20% vs 8%; p = 0,017) e equivalente em 12 semanas (95,8% vs 96,6%); sangramento maior de 2,3% vs 1,1% (sem significância)

 

Uma metanálise de 2025 restrita a ECRs (Koeckerling e colaboradores, JACC Advances) consolida esses dados. Como se trata de coortes pós-IAM ou pós-SCA, os trombos são predominantemente apicais — e o ensaio de Mansouri incluiu exclusivamente trombo apical.


Contraponto a ser considerado

A coorte retrospectiva multicêntrica de Robinson e colaboradores (JAMA Cardiology, 2020; n = 514) identificou maior incidência de acidente vascular cerebral e embolia sistêmica com DOACs (razão de risco de aproximadamente 2,6) — sinal atribuído a confundimento e ao uso de doses reduzidas fora de bula, não reproduzido nos dados randomizados subsequentes, mas que explica por que as diretrizes permaneceram conservadoras por vários anos.


Posicionamento das diretrizes

É consistente com o documento do ACC: o Scientific Statement da AHA de 2022 sobre trombo do VE considera os DOACs alternativa razoável à varfarina, com 3 a 6 meses de terapia e reavaliação por imagem; as diretrizes de síndromes coronarianas agudas da ESC de 2023 recomendam anticoagulação oral por 3 a 6 meses, guiada por reavaliação de imagem, sem determinar a classe do agente.



3. Tempo de anticoagulação


Principais cenários

Em pacientes com um trombo no VE recém-identificado, recomenda-se a anticoagulação (Grau 1C), que deve ser mantida por pelo menos três meses. Após a reavaliação por imagem ao final de três meses, a conduta em cenários comuns inclui [12]:

a) Ausência de alteração no tamanho ou nas características do trombo – Em pacientes sem alteração no tamanho ou nas características do trombo, manter a anticoagulação e continuar a reavaliar;

b) Diminuição do tamanho do trombo ou desenvolvimento de características de trombo organizado – Em pacientes cujo trombo diminui de tamanho ou apresenta características de um trombo com menor probabilidade de embolização, a decisão de manter ou suspender a anticoagulação baseia-se na confiança de que o trombo apresenta baixo risco de embolização e na persistência de fatores de risco para embolização e formação de trombos. Devido à incerteza em determinar com precisão a idade ou o risco embólico de um trombo, geralmente mantem-se a anticoagulação nesses pacientes e realiza-se nova reavaliação por imagem. Nos trombos persistentes, a decisão deve considerar morfologia. Trombos protrusos ou móveis favorecem manutenção ou revisão da estratégia anticoagulante; nos trombos murais crônicos, organizados ou calcificados, a suspensão após tratamento adequado pode ser considerada individualmente;

c) Resolução do trombo e persistência de fatores de risco para novo trombo – Em pacientes com resolução do trombo em exames de imagem de controle, a decisão de manter anticoagulação baseia-se na persistência de fatores de risco para trombose (p. ex., fração de ejeção baixa do VE [FEVE], presença de contraste espontâneo, formação de aneurisma apical, outros distúrbios de coagulação) e no risco de sangramento com a manutenção da anticoagulação;

 

d) Resolução tanto do trombo quanto dos fatores de risco – Em pacientes sem evidência de trombo residual, cuja função sistólica tenha melhorado ou retornado ao normal e que não apresentem aneurisma de VE ou outra indicação (p. ex., FA, prótese valvar mecânica) para anticoagulação, é razoável suspender a anticoagulação e reavaliar quanto ao reaparecimento de trombo ou fatores de risco associados.


Tempo de terapia tripla

Nos pacientes pós-angioplastia coronariana, em uso de antiagregantes, individualizar a duração da terapia tripla e seguir protocolo institucional de terapia antitrombótica, ponderando risco isquêmico e hemorrágico. A diretriz ACC/AHA de SCA de 2025 [13] recomenda, quando há indicação de anticoagulação oral após PCI, interromper o AAS em geral após 1–4 semanas, mantendo anticoagulante + inibidor P2Y12, preferencialmente clopidogrel, individualizando risco isquêmico e hemorrágico.

Na ausência de contraindicações, a rivaroxabana pode ser considerada uma alternativa à varfarina e, pelas facilidades de uso e ausência de necessidade de monitorização de INR, poderá ser preferida em pacientes adequadamente selecionados. [6] 

Principais contradições para a rivaroxabana: prótese mecânica, Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide [SAAF], estenose mitral moderada a importante, TFG < 15 (cautela com TFG 15/30 mL/min/1,73m2), gestação e lactação, insuficiência hepática cirrose Child-Pugh B e C.



4. Conclusão para a prática clínica

Existe evidência randomizada — cerca de 480 pacientes distribuídos em cinco ECRs, mais recentemente ancorada pelo RIVAWAR — que apoia o uso de rivaroxabana em dose plena (20 mg/dia) ou apixabana (5 mg duas vezes ao dia) como alternativas à varfarina no trombo apical do VE, com resolução superior a 95% em 12 semanas e sem penalidade em sangramento. O tempo de anticoagulação vai depender dos achados no exame de imagem e dos fatores de risco associados.


Ressalvas que permanecem:

•    O uso continua formalmente fora de bula.

•    Os ensaios são abertos e têm poder estatístico para resolução do trombo — um desfecho substituto —, não para eventos embólicos.

•    A varfarina mantém preferência nas situações em que os DOACs têm desempenho inferior: síndrome antifosfolípide e próteses valvares mecânicas.

•    A reavaliação aos 3 meses, com ecocardiograma transtorácico ou ressonância magnética com realce tardio nos casos duvidosos —, é o que deve orientar a duração do tratamento além do curso inicial.



Fluxograma para rastreio e tratamento de trombo no ventrículo esquerdo, após infarto agudo do miocárdio

Legenda: ETT = ecocardiograma transtorácico; ETE = ecocardiograma transesofágico; RMC-RT = ressonância magnética cardíaca com realce tardio;  ACO = anticoagulação oral


Referências bibliográficas

1. Kumbhani DJ, Armbruster AL, Cheng RK, et al. Direct oral anticoagulants in primary and secondary prevention of thrombotic events: 2026 ACC scientific statement. J Am Coll Cardiol. 2026;XX:XXX-XXX. doi:10.1016/j.jacc.2026.05.033

2. Abdelnabi M, Saleh Y, Fareed A, et al. Comparative study of oral anticoagulation in left ventricular thrombi (No-LVT trial). J Am Coll Cardiol. 2021;77(12):1590-1592. doi:10.1016/j.jacc.2021.01.049

3. Alcalai R, Butnaru A, Moravsky G, et al. Apixaban vs. warfarin in patients with left ventricular thrombus: a prospective multicentre randomized clinical trial. Eur Heart J Cardiovasc Pharmacother. 2022;8(7):660-667. doi:10.1093/ehjcvp/pvab057

4. Mansouri P, Jazi ZA, Mansouri MH, et al. Evaluation of the efficacy and safety of rivaroxaban compared to warfarin in patients with left ventricular apical thrombus: a randomized clinical trial. Thromb J. 2024;22(1):66. doi:10.1186/s12959-024-00632-5

5. Jenab Y, Sadeghipour P, Mohseni-Badalabadi R, et al. Direct oral anticoagulants or warfarin in patients with left ventricular thrombus after ST-elevation myocardial infarction: a pilot trial and a prespecified meta-analysis of randomised trials. EuroIntervention. 2025;21(1):82-92. doi:10.4244/EIJ-D-24-00527

6. Shah JA, Hussain J, Ahmed B, et al. Rivaroxaban vs warfarin in acute left ventricular thrombus following myocardial infarction: RIVAWAR, an open-label RCT. JACC Adv. 2025;4(8):101978. doi:10.1016/j.jacadv.2025.101978

7. Koeckerling D, Reddy RK, Barker J, et al. Direct oral anticoagulants or warfarin for left ventricular thrombus: a meta-analysis of randomized clinical trials. JACC Adv. 2025;4(11 Pt 1):102243. doi:10.1016/j.jacadv.2025.102243

8. Robinson AA, Trankle CR, Eubanks G, et al. Off-label use of direct oral anticoagulants compared with warfarin for left ventricular thrombi. JAMA Cardiol. 2020;5(6):685-692. doi:10.1001/jamacardio.2020.0652

9. Levine GN, McEvoy JW, Fang JC, et al. Management of patients at risk for and with left ventricular thrombus: a scientific statement from the American Heart Association. Circulation. 2022;146(15):e205-e223. doi:10.1161/CIR.0000000000001092

10. Byrne RA, Rossello X, Coughlan JJ, et al. 2023 ESC guidelines for the management of acute coronary syndromes. Eur Heart J. 2023;44(38):3720-3826. doi:10.1093/eurheartj/ehad191

11. Tomasoni D, Sciatti E, Bonelli A, Vizzardi E, Metra M. Direct oral anticoagulants for the treatment of left ventricular thrombus — a new indication? A meta-summary of case reports. J Cardiovasc Pharmacol. 2020;75(6):530-534. doi:10.1097/FJC.0000000000000826n

12. Trombo no ventrículo esquerdo, sessão de tratamento. UpToDate, acessado em agosto de 2026

13. Rao SV, O’Donoghue ML, Ruel M, Rab T, Tamis-Holland JE, Alexander JH, et al. 2025 ACC/AHA/ACEP/NAEMSP/SCAI Guideline for the Management of Patients With Acute Coronary Syndromes: A Report of the American College of Cardiology/American Heart Association Joint Committee on Clinical Practice Guidelines. Circulation. 2025;151(13). doi:10.1161/CIR.0000000000001309.

Documento de apoio à decisão clínica. As condutas descritas devem ser individualizadas e não substituem o julgamento clínico nem as diretrizes institucionais vigentes.


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